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segunda-feira, 12 de maio de 2014

O PASSADO POR FILIPPO PITANGA



"Agendas irreconciliáveis". Esta expressão pode parecer estranha, mas é listada como causa de muitos dos divórcios de astros de Hollywood. Ou seja, será que dá para perder um ao outro no tempo? Mas e as emoções irreconciliáveis, como ficam? O passado do casal, ou, como chamamos aqui: a bagagem? Pois “O Passado” (“Le Passé”, 2013), a nova obra do diretor Asghar Farhadi (que teve eleito seu anterior, “A Separação”, melhor filme de 2012 pela ACCRJ, além do Oscar de estrangeiro), consegue solidificar o cineasta iraniano como um habilidoso artesão de pontos de vista diferentes, desvelados aos poucos, para chegar a uma verdade maior (que nunca é finita, continuando seus questionamentos após a projeção).

A tal bagagem de todos os relacionamentos vem assombrar a personagem de Berenice Bejo (premiada em Cannes pelo papel, e mais lembrada por "O Artista" e "Skyfall") – mas será que ela não pediu por isso? Quase um masoquismo auto-inflingido como forma de superação forçada? Bem, noiva de um novo namorado, ela convoca seu ex para assinar o divórcio, mas as tensões entre as filhas de relacionamentos anteriores (tem mais ex na história que não aparecem!) e o do atual eclodem numa catarse trágica de revisão do passado. Há um trauma a ser superado a partir de ângulos múltiplos que guardam às vezes verdades diversas (cabe ao espectador escolher: como se uma personagem-chave teria ou não teria lido certos e-mails na história, desencadeando o drama!). E onde o cineasta amplia os conflitos com técnicas visuais bem aplicadas, como contraposição de personagens no 1º ou 2º plano, ou mesmo contrastes de iluminação e cenário para representar os ânimos de lados opostos no ringue (note-se sempre uma personagem na penumbra enquanto outra à meia luz) – prato cheio para cinéfilos interpretarem!

Restam as diferenças que, apesar de não serem tão pungentes, politicamente falando como em “A Separação”, estão no caminho de refinar o cineasta como não um mero panfletário, pois as referências sócio-político-jurídico-religiosas ainda estão lá, porém bem mais sutis e satélites à trama principal (e igualmente importantes, como coadjuvantes imigrantes, ilegais ou não na França). No fundo, um drama de bagagem cheia, com excelência de interpretação especialmente do trio principal e da filha mais velha!