truque de mestre

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quinta-feira, 17 de abril de 2014


Dirigido pelo desconhecido Christopher Spencer e com estréia prevista para a Páscoa, nos cinemas de todo o Brasil, o longa-metragem "O Filho de Deus" tem seu gênesis na minissérie de televisão norte-americana, "A Bíblia" (2013), exibida por lá no History Channel e por aqui pela Record. Seu primeiro capítulo foi assistido por 13 milhões de pessoas, nos Estados Unidos, e os demais não ficaram atrás. A obra foi um enorme sucesso. No entanto, nem tudo o que funciona na telinha dá certo na telona.

O filme mostra a vida de Jesus Cristo (Diogo Morgado) sob o ponto de vista de São João Evangelista (Sebastian Knapp). Já velho, aguardando o chamado para viver no paraíso e com uma narrativa que se assemelha ao inicio de "Noé" de Darren Aronofsky, o apóstolo relembra todos aqueles que precederam a chegada do messias: Adão, Abraão, Noé, Moisés e rei David. Em seguida, conta como foi o nascimento do filho de Deus e, assim, didaticamente, vai até o fim, a ressurreição após o terceiro dia.

Didático. Esta é a palavra que melhor descreve "O Filho de Deus". Seguindo o modelo que serve perfeitamente bem a função de um canal como o History Channel, diretor, produtores e roteiristas parecem ter esquecido que a Bíblia é o livro mais lido de todos os tempos. Consequentemente, não existe pessoa que vá ao cinema e desconheça a história de Cristo. Ainda assim, eles fizeram um filme que não acrescenta nada de novo em relação às dezenas de versões cinematográficas ou televisivas existentes sobre o tema.

Não precisa ser cinéfilo para saber que ícones como Franco Zeffirelli e Martin Scorsese; ou estrelas como Mel Gibson, já dirigiram obras do gênero. Basta consultar a internet. E, de um jeito ou de outro, todos deixaram sua marca. O diretor italiano, por exemplo, rodou a mais portentosa de todas as versões. "Jesus de Nazaré" (1977) tem 4h 58 minutos e um elenco com astros do quilate de Sir Lawrence Oliver, Rod Steiger, Peter Ustinov, Christopher Plummer, Ernest Borgnine e Anne Bancroft. Apesar de ser assumidamente católico, Scorsese foi alvo de críticas por mostrar um relacionamento amoroso entre Jesus e Maria Madalena, no soberbo A Última Tentação de Cristo (1988). Gibson, por sua vez, filmou "A Paixão de Cristo " (2004) em aramaico, latim, hebraico e foi acusado de antissemitismo.

Esta falta de vontade de realizar algo inovador é o maior pecado do longa-metragem, mas não o único. Os erros grotescos são muitos. A precariedade dos efeitos especiais chama a atenção de forma vergonhosa. A chaga na mão de Cristo, provocada pelo prego da crucificação, foi, constrangedoramente, feita em photoshop. Já a cena da ressurreição de Lázaro (Anas Cherin) mais parece tirada de um filme B de zumbis. Igualmente vexatória é caracterização de alguns personagens. Em pleno século um, João Batista (Daniel Percival) usava dreadlocks. Já os dentes de quase todos os atores são brancos como os de uma propaganda de creme dental.

Daria para ficar apontando ainda vários pecados do arrastado "O Filho de Deus", mas seria também uma completa perda de tempo. Contudo, não dá para deixar de falar do ator português Diogo Morgado. O seu Cristo galã é tão ruim que chega a dar saudades de Jeremy Sisto, em Jesus (1999), filme favorito de todas as sessões da tarde da Páscoa. E olha que fiz o favor de não compará-lo com as carismáticas interpretações de Robert Powell e William Dafoe, nas obras de Zeffirelli e Scorsese.

Desliguem os celulares.

Por Bruno Giacobbo
Crítica também publicada no Blah Cultural